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Uma cidade perigosa para os peões
 

 Na sexta-feira à noite, duas pessoas morreram atropeladas, numa passadeira, junto à Gare do Oriente. Na manhã seguinte, uma idosa foi também mortalmente atingida por um carro, na Avenida de Roma. Apesar de os números provisórios de 2012 indicarem um decréscimo, os atropelamentos continuam muito frequentes em Lisboa. A PSP promete nova campanha de sensibilização e o novo Código da Estrada anunciado pelo Governo quer pôr os peões no topo das prioridades. A Câmara cria “zonas 30″. Será suficiente?

 
Texto: Samuel Alemão * Fotografia: Luísa Ferreira
 
As contas continuam a fazer-se com sofrimento. Apesar de uma ligeira melhoria nas estatísticas relativas ao atropelamento de peões, tanto a nível nacional como da cidade de Lisboa, os números mantêm-se altos. É verdade que os dados mais recentes, e provisórios, da Autoridade Nacional da Segurança Rodoviária (ANSR) dizem que os dez primeiros meses de 2012 terão assistido a um decréscimo deste tipo de acidente: 492, face aos 587 e aos 599, do período entre Janeiro e Outubro, respectivamente de 2011 e 2010. Tendência confirmada pelos números da PSP (ver texto em baixo), mas longe ainda de deixar as autoridades descansadas. Tanto que a polícia anuncia uma campanha de sensibilização para a questão, à imagem da desenvolvida em 2010, denominda “Pela Vida, trave”. Em simultâneo, a reforma do Código da Estrada promete dar ao peão a prioridade e a Câmara Municipal de Lisboa cria as “zonas 30″. As ruas da capital continuam, porém, a ser palco de uma guerra assimétrica entre automobilistas e peões.
 
A prevalência do problema, ligeiramente atenuado, nos últimos anos, pelo decréscimo de automóveis em circulação em virtude da crise económica, evidencia a manutenção das causas – já há muito identificadas. Mas também a ausência de resposta adequada da sociedade e das autoridades. “A responsabilidade de um atropelamento é sempre de alguém, consoante as circunstâncias. E o condutor e o peão não são os únicos culpados disto. As autoridades não estão a fazer o que devem para evitar o prolongar deste cenário”, afirma Victor Meirinhos, investigador desta questão e professor no Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna (ISCPSI). O docente, autor de uma tese de mestrado intitulada “Pedonalidade em risco: estudo antropológico dos atropelamentos em Lisboa”, defendida na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, critica a falta de medidas tendentes a evitar acidentes com peões. “Há muitas deficiências nas vias de circulação”, diz.
 
 A principal será a sua tipologia, já que muitas vias se revelam desadequadas a um perfil urbano. “Muitos acidentes são causados pela velocidade excessiva que se atinge em muitas artérias da cidade de Lisboa, as quais são, na prática, auto-estradas em meio urbano”, considera Victor Meirinhos, lembrando o principal factor que potencia decisivamente a gravidade das lesões causadas por este tipo de acidentes. Neles, a distração dos condutores e dos peões é, igualmente, um elemento fundamental. Por isso, defende a aplicação de uma série de mediadas mitigadoras, como sejam a colocação de bandas sonoras, o elevamento de passadeiras, a repavimentação de certas ruas com empredrado e a disseminação do uso do radar e a sua articulação com semáforos. Além disso, fala na necessidade de “remover o excesso de lixo visual, como o mobiliário urbano e a publicidade, que ocupa a maior parte dos passeios e reduz a visibilidade dos condutores face às pessoas que andam junto à via”.
 
 
Trata-se, aliás, de uma das medidas incluídas no pacote de alterações ao Código da Estrada, que o Governo se prepara para aprovar e que tem na segurança dos peões, das pessoas portadoras de deficiência e dos ciclistas a principal preocupação. Os painéis publicitários e os néons junto das estradas serão proibidos, sempre que se considere que ponham em risco a segurança. Tal como as obras nos passeios só terão lugar, se forem sinalizadas e facultarem uma passagem temporária para peões, evitando que eles caminhem na faixa de rodagem. Mas a grande novidade do novo código – que deverá reduzir a taxa de álcool para 0,2 gramas, por litro de sangue -, no que se refere a quem anda a pé, será a criação de “zonas residênciais de coexistência”. Nelas, será partilhado o espaço entre os peões e os veículos, não podendo estes ultrapassar os 20 quilómetros por hora.  Alteração que vai ao encontro do defendido por Mário Alves, da Associação dos Cidadãos Auto-Mobilizados (ACAM), e se insere num conjunto de acções que podem ser realizadas para reduzir o perigo do trânsito automóvel na cidade – habitualmente, designadas por “acalmias de tráfego”.
 
A alteração legislativa surge quase em simultâneo com o anúncio, pela Câmara Municipal de Lisboa, da criação, até ao final do ano, de “zonas 30″ em 16 bairros lisboetas.  O centro histórico de Carnide e o bairro do Arco do Cego serão os primeiros a ver a circulação viária limitada a 30 km/hora. A medida, que se insere na iniciativa europeia de imposição da velocidade máxima de circulação a esta velocidade, na generalidade do meio urbano, chegará depois, gradualmente, aos outros bairros. Mário Alves, que é também engenheiro de transportes, defende-a. E fala num perigo de atropelamento disseminado pela cidade, já que se revela difícil apontar “pontos negros”. Por vezes, “um sítio que parece tão perigoso, como o Rato ou Saldanha, deixa de o ser, porque as pessoas tomam cuidado para não serem atropeladas, de tão cientes que estão do risco”, diz. Uma tese corroborada por Victor Merinhos, para quem o Saldanha é o exemplo perfeito de um local visto comumente como dos mais perigosos de Lisboa, “sem que haja dados que o comprovem”.
 
 
A imposição de medidas tendentes a diminuir a velocidade e, consequentemente, os atropelamentos seria muito benéfica para a comunidade, em especial para os mais velhos, defendem os especialistas. “Temos que ter mais atenção aos idosos”, alerta Victor Meirinhos. E os números da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária corroboram a preocupação. Se, em 2011, se verificou um ligeiro decréscimo no número total de atropelamentos (de 735 para 710), em Lisboa, face ao ano anterior, a ocorrência destes acidentes subiu de 141 para 143, em pessoas com mais de 74 anos. Esse é, de resto, o grupo etário que mais sofre com os atropelamentos. Um facto explicado pela menor agilidade e tempo de reacção. O segundo grupo etário mais afectado são as crianças. Em cada um dos dois anos analisados, deram-se 62 atropelamentos de menores de 15 anos.
 
 Os idosos são também a maior preocupação da ACAM. “A população lisboeta está muito envelhecida. Muita dela faz parte do grupo de pessoas que não têm automóvel, se calhar, nunca teve, e cujos filhos se mudaram para a periferia nas últimas décadas e o utilizam intensamente”, considera Mário Alves. O especialista lembra que, todos os dias, entram entre 500 a 700 mil veículos na capital. E os atropelamentos coincidem, sobretudo, com as horas de ponta. “Durante décadas, o automóvel foi favorecido. Isso desafia o paradigma técnico”, considera Mário Alves. Muito trabalho terá de ser realizado para reverter a situação. E muitas resistência surgirão. “O carro ainda é considerado como um símbolo de sucesso na vida, por ser, na nossa sociedade, uma aquisição recente. O andar a pé ainda é visto como uma coisa de pobres”, salienta o dirigente da ACAM.
 
 24 de Julho é ponto mais negro
 
A Divisão de Trânsito da PSP de Lisboa confirma ao Corvo uma redução na ocorrência de atropelamentos na cidade de Lisboa, em 2012. Foram 596 (255 na passadeira e 341 fora dela), face aos 669 atropelamentos verificados no ano anterior (309 na passadeira e os restantes fora dela). O que correspondeu a uma diminuição de 10,9% neste género de acidentes. Mas os números continuam elevados, reconhece a polícia, que tem encetado “operações de fiscalização rodoviária direccionadas para punir o incumprimento por parte dos condutores que não cedem passagem aos peões que tenham iniciado a travessia da via no local destinado para esse efeito”. Ou seja, a PSP assegura que está especialmente atenta aos atropelamentos em passadeiras. Mas não descura os ocorridos fora delas, fiscalizando a existência de “viaturas indevidamente estacionadas, sobretudo em cima dos passeios, e que, dessa forma, impedem os peões de os usar”.
 
Graças à prática da georreferenciação – uso do GPS – dos acidentes, a Divisão de Trânsito da PSP sabe agora que a Avenida 24 de Julho é a mais perigosa artéria da cidade. No ano passado, ocorreram ali 24 atropelamentos, resultando numa vítima mortal, um ferido grave e em 22 feridos ligeiros. O número total de pessoas atropeladas nesta via é mais do dobro do verificado na segunda artéria com mais ocorrências do género, a Estrada de Benfica, com 11 atropelamentos (dez feridos ligeiros e um grave).  Imediatamente a seguir, no ranking das vias mais perigosas em Lisboa estão a Avenida da República (nove feridos ligeiros e dois graves) e a Alameda das Linhas de Torres (nove feridos ligeiros e um grave).
 
http://ocorvo.pt/2013/03/11/uma-cidade-perigosa-para-os-peoes-2/
   
 
 
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